Os nichos

Os nichos

Severin Dayek

Os nichos– 1971 – Editora Unir.

Camarões

(1922-2011)

Um livreiro observa seus livros se transformarem pela ação dos cupins. Uma a uma obras de Dostoiévski, Gogol, Hemingway, Karel Tchapek, Nicolás Guillén se convertem em um emaranhado de pequenos túneis que, para o narrador, se assemelham a animais, rostos de antigos conhecidos, uma cena bucólica esquecida na infância. Os nichos é uma metáfora da morte e da mudança. A pequena novela do escritor camaronês foi publicada durante as sua estadia na França e logo despertou o interesse de gente como Georges Perec e Nathalie Serraute pelo parentesco com o nouveau roman, embora em Dayek a descrição esteja mais no mundo que existe na cabeça do narrador e, embora mais uma vez, o eu desse narrador se negue como tal. Em um paralelo, o processo descritivo no movimento francês afirma a impessoalidade. Já a obra do camaronês nega a impessoalidade e o seu avesso ao mesmo tempo.  Se para o leitor francês o texto já era um caleidoscópio enganoso, em português, aqui na tradução de Odara Mendes, há mais uma transformação, mais uma ação que corrompe e transforma, mata e dá vida. Um livro de Dayek é sempre uma surpresa. Mas o autor foi um homem sem biografia: morto no ano passado, quase não foi publicado.

Trechos:

“Eu sou os meus livros. Eu sou todas estas palavras dos outros, o meu corpo não me pertence. Eu não tenho palavras minhas. Vejo o meu corpo ali sendo devorado.” (Pág. 27)

“Os pequenos túneis são como veias que se apossam do papel e o transformam num objeto mais próximo do ser humano, algo mais orgânico, algo que se assemelha à própria pele, a pele recheada de pequenos escorpiões.” (Pág. 55)

“A morte sabe o nome de todas as coisas.” (Pág. 70)

O escritor em uma das suas poucas fotos conhecidas. Provavelmente em 1987.

Tradução: Odara Mendes.

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À tarde, fui nadar

Ben Barzilai

À tarde, fui nadar– 1997 – Ed. Barravento.

Israel

(1969)

Um romance sobre o fim do amor. Não o amor entre um homem e uma mulher, mas entre um homem e seus livros, a sua obra, a sua memória. O personagem Asher (e uma espécie de Ich-Erzähler), desiludido pelo insucesso do seu livro O habitante do riso, abandona a literatura. O livro dentro do livro trata do momento em que Rabelais escutou a risada cínica de Deus e escreveu o primeiro romance. “Vende-se este barraco, a morada do ser”. Assim começa O habitante do riso. O livro mal formado. O filho deficiente. As fortes críticas quase levam o escritor à loucura. Asher, velho e só, odeia o livro recém-publicado e passa a trabalhar como marceneiro em uma cidade que não tem o nome revelado. Lá ele vai encontrar um personagem que considera a fala e a eloquência os maiores dos dons. À tarde, fui nadar é um romance sobre a devastação da velhice e o rancor consigo mesmo, escrito em linguagem próxima à embriaguez dos apaixonados pela própria morte. O registro começa em primeira pessoa, passa para a falsa terceira pessoa e não desemboca em pessoa alguma. Vejamos um dos seus trechos finais: “O livro é uma carta sem destinatário. Na medida em que o seu destinatário é todas as pessoas, é nenhuma. E carta sem destinatário volta ao remetente, volta ao destino. O meu destino. O destinatário sou eu mesmo e Deus que, sendo tudo, não pode ser nada. Este livro, então é uma carta para mim mesmo e para Deus. É um acerto de contas, meu velho.”

Trechos:

“O livro – objeto mágico – como uma pintura rupestre. Era necessário que a minha memória morressse nele para que, de fato, morresse em mim. O livro nos vende a falsa ideia que é nossa memória, que poderíamos consultá-la à página cinquenta e nove, adiantar-nos aos trechos maçantes, fechá-la em capa de couro.” (Pág. 45)

“Há lembranças que comprimem toda a vida em um único ponto, um buraco negro que a tudo suga, e há as lembranças que são como um demônio escondido em uma nuvem a se rebolar, brincalhão.” (Pág. 72)

“Como nos criamos a nós mesmos? Cada lembrança é um demônio diferente na hierarquia infernal.” (Pág. 115)

“Comeram as migalhas de pão que o velhote deixou no caminho. A bruxa, porém, é bela.”  (Pág. 166)

Tradução: Rodrigo Rosa Portella

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O baile das casacas alugadas

Giuseppe Barbagallo

O baile das casacas alugadas– 2003 – Ed. Mundo novo.

Itália

(1953)

Uma mãe narra essa história. Assim como todas as outras histórias.  As mães narram para sempre. Uma mulher que sofre do Mal de Alzheimer narra essa história. Uma história de mãe e filho. Com avançado grau da doença, ela esquece o nome das coisas e pessoas. Esquece o nome do filho. Esquece quem é. Esquece o acontecido. Inventa. Assim como o autor. Barbagallo cria, através da sua personagem, uma escrita próxima das kennigar islandesas. A mulher, a mãe, narra esquecendo. Narra para morrer. Uma Sherazade às avessas. Um assaltante invade a casa da família em um passado remoto. A doença de esquecer e a de não esquecer. O filho da mulher que narra quer vingança pelas mortes causadas, pelos estupros cometidos. Giuseppe Barbagallo cria ficção porque esquece. Isso fica claro nas linhas de O baile das casacas alugadas. A linguagem aqui, de tão rebuscada, faz o leitor refletir sobre o que é realmente límpido e claro em nossas vidas. O que deve ser dito. O livro é uma espécie de novo neobarroco onde a arte da contra-conquista falhou. E a arte, em geral também. Esquecemos todos.

Trechos:

“O grande que quebra anel, aquele, que no monstro de olhos, de olhos verdes, entrou em casa.” (Pág. 45)

“…a empregada dormiu com bala, só levantou com o sol das casas.” (Pág. 92)

“A gente vive aqui nesse crânio de Deus é assim. Esqueço.” (Pág. 132)

Tradução: Vicente Alexander

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A Síntese

Darko Jokmovic

A síntese – 1922 – Hécuba Editora.

Sérvia

(1875-1923)

Picasso costumava afirmar que tudo era um milagre, e que era um milagre que uma pessoa não se dissolvesse no próprio banho. Quem lembrou isso foi o escritor argentino Alberto Manguel. E é exatamente um milagre o assunto desse livro. Um homem sintetiza o ectoplasma em laboratório. É o ano de 1975. A partir desta descoberta os cientistas começam a criar um novo mundo, completamente formado por períspiritos. Famílias inteiras feitas de ectoplasma, cidades inteiras, animais, bancários, operários, jornalistas, escritores. E tudo isso sem precisar ter um correspondente no mundo material ou, em outras palavras, pessoas mortas. Uma realidade à parte criada pelo homem. Segundo Julian Cardoni, crítico colombiano, trata-se de uma parábola, bem ao gosto de Jokmovic, sobre a escrita e o seu poder. “Um romance só se realiza quando é tão complexo quanto a própria realidade, e esse é o caso”. O protagonista é o Senhor W, que vive em eterna angústia por não fazer parte desse mundo novo. Enfim, A síntese é um romance em que a verossimilhança é obtida mediante o mais puro humanismo.

Trechos:

“Hoje, neste laboratório, aconteceu um milagre.” (Pág. 29)

“Nenhum deles gostaria de ter sobrevivido ao outro.” (Pág. 40)

“…ao se afastar do médium à sua esquerda, o Senhor W conseguiu uma pequena amostra do material desencarnado, estava no limiar.” (Pág. 65)

“A escrita era translúcida. Cada letra como uma luz pálida.” (Pág. 92)

“Aqui não há alucinações nem fantasmas: há homens verdadeiros, pelo menos tão verdadeiros quanto eu.” (Pág. 122)

Tradução: Norma Villasbôas

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Como cães enganchados

Antoine Leouf

Como cães enganchados – 1998 – Ed. Maipú.

França

(1959)

“Presos e de costas um para o outro: Michel e Jeanne. Presos e de costas para si mesmos: “Michel e Jeanne”. Presos e de costas para o mundo – Michel, Jeanne. Presos: Michel/Jeanne””. Como cães enganchados é um romance que pulsa em deliciosa perspicácia, uma luz inteiramente nova na vida dos homens comuns. Ela, de família árabe, trabalha em uma tapeçaria. Ele, operário em uma fábrica de automóveis. Dois que, solitários, sonham. Ele com um livro que descreve um mundo onde absolutamente tudo possui uma estátua, desde o mais reles rato ao governante máximo. Ela com uma tapeçaria perfeita, que conte a sua vida em imagens. O romance é um festim de prosa livre, com diferentes registros para primeira e terceira pessoa onde se repete o leitmotiv dos cães enganchados após o coito. Leouf, por sua vez, é um especialista em criar inadaptados de todas as formas, sempre perseguidos pelo poder transfigurador do medo. Criado em uma família intransigentemente conservadora, o autor vive hoje no sul da França e escreve apenas poemas em língua occitânia.

Trechos:

“Nesse livro, nesse sonho, tudo era estátua, como se sua habitante fosse uma única medusa.” (Pág. 75)

“Ela, na banheira, como uma estranha medusa, os cabelos são os únicos a denunciar vida.” (Pág. 113)

“Os mortos continuam mortos. E isso encerra tudo.” (Pág. 156)

“O sonho como um animal marinho, cabeça de cavalo, crina de anêmonas e a espuma grossa do medo.” (Pág. 215)

“- Eu era muito calor. As babas do que se fala, pilhando, óierbando o vai-e-vai da vida.” (Pág. 261)

“- O silêncio do olhar da medusa.” (Pág. 293)

Tradução: Tibério Costa Júnior.

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Desarrumado

Desarrumado – 1993– Plasma Editora.

Tom Callahan

Inglaterra

(1967)

Kafka se aproxima da menina chorosa e conta que sua boneca não tinha se perdido e sim viajado. A boneca havia mandado uma carta para a menina contando do seu passeio e essa carta seria entregue nos dias seguintes. Kafka, então, se põe a escrever as cartas. A boneca se chamava Alice e atravessava um espelho onde encontrava um mundo onde os tigres eram deuses. O livro é Desarrumado e o autor é Tom Callahan e mistura várias referências literárias com filosofia:

“Para o primeiro Heidegger, o conceito de Desarumar-se aborda muitas questões. A principal delas toma como exemplo o ser humano, que se caracteriza precisamente por se intermediar com o seu passado: o homem é um “ser que se desarruma” e sua relação com o mundo concretiza-se a partir dos conceitos de não-passado e não-futuro, ou seja, o não-rumo. O homem deve tentar arrumar o seu caminho, fugindo de sua condição cotidiana para atingir sua verdade.”

O importante, aqui, é desarrumar as expectativas do leitor. É trazer o horror e o inferno para a literatura. A escrita de Callahan é sempre a mesma, e é uma cilada: tendo passeado por ali, vc de lá nunca sai. São imagens inacreditavelmente magnéticas, que mesclam um apelo primordial e infantil a uma coisa ao mesmo tempo mística e sinistra.

Trechos:

“Correr me faz pensar e me obriga a refletir sobre o que estou fazendo. Já inventei muitas histórias para bonecas chamadas Alice. Você tem um nome Alice? Ou qualquer outro que possamos usar agora?” (Pág. 14)

“O importante é entender –me a mim mesmo, é perceber o que Deus realmente quer que eu faça; o importante é achar uma verdade que é verdadeira para mim, achar a ideia em prol da qual posso viver e morrer. A ideia de um tigre. Ou de um cavalo que só surge quando eu o desenho, a trotar ao meu redor.” (Pág. 87)

“Floresceríamos, eu e tu, a rosa chamada ninguém, no espinho abaixo do mundo.” (Pág. 119)

“A história como esse cavalo, se fazendo selvagem, se fazendo crinas e cascos, usando sua mandíbula veias e músculos para dizer: me conte.” (Pág. 126)

Tradução: Carolina Pires.

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Só o sol tem direito a suas manchas

Só o sol tem direito a suas manchas – 1986– Ed. Casmurro.

Allan Oppenbach

Inglaterra/Alemanha

(1936)

No princípio era o verbo, diz o Gênesis. Mas o que era antes disso? É essa história da criação do verbo por Deus que Oppenbach nos conta em Só o sol tem direito a suas manchas. No romance Deus é o narrador que tenta criar o verbo primeiramente com o sopro, depois com as batidas das mãos, depois com uma maneira diferente de olhar e, por fim, com grunhidos. Para o autor é evidente a importância daquilo que chamamos mousikè, ou seja, o emprego da palavra transfigurada em sonoridades. Para ele, a sonoridade implica “no desvelamento de sentidos subterrâneos”, como já disse um importante crítico. A prática heideggereana de praticar neologismos que unem o ser e o pensar também faz eco na escrita desse inglês de família alemã. Preocupado com a dinâmica do silêncio e da criação, Oppenbach nos presenteia com uma prosa contundente, difícil de ser recriada. Uma reflexão sobre o ato da escrita e do sexo.

Trechos:

“Ng goo, ossip, tha tha, dum. Clap, clap, hum, ééé, Pa. La. Vra.” (Pág. 25)

“E a toda palavra, a todo verbo, todo adjetivo, dou-lhes alma vivente, todo substantivo crescerá como a erva. E assim foi.” (Pág. 47)

“Eu digo: venho dado toda semente, que agora se chamará palavra, e que cada palavra dê fruto e que cada homem seja escolhido para portar as suas palavras, que também serão chamadas de almas.” (Pág. 91)

“Estou pleonástico.” (Pág. 114)

Tradutor: Antonio Marcos Pereira.

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Plankalkul

Adam Babbage

Plankalkul – 2011 – Faulkner Editorial

Holanda

(1953)

Babbage escreveu um único romance, que só recentemente ganhou sua primeira edição em português. E isso quase vinte anos depois da edição holandesa. Plankakul se utiliza de uma emulação de linguagem de programação para contar a vida do andróide Pascal, sua namorada (não se sabe se também é um modelo de vida artificial) e seu “pai”, chamado de adversário, o programador Larry Constantine. Plankakul dialoga com o romance SW 16 6PF, de Porfírio Iakoniká, e, como ele, é um cântico em louvor do que é demasiadamente humano. O autor hoje vive recluso em um bairro ao sul de Londres. A beleza desse livro está na fragilidade da sua criação, na tentativa frustrada de criar algo novo, assim como é a própria vida de cada um de nós. Plankakul não ganhou prêmios literários, mas foi conquistando leitores ao longo dos anos. Em entrevista ao crítico Julian Cardoni, Babbage declarou de braços cruzados que: “Viver é tentar escrever e falhar”.

Trecho:

“nome do personagem;

pascal

controla (administra uma biblioteca)

executa uma simples caixa de mensagem e escreve “Olá Mundo!”.

variação. – (Não suporta)

(corpo) (body)

começa o romance (qualidade do protagonista, inteligência)

pascal = x

X e Y, juntos.

(Pág. 12)

Se X = Y e Z , temos o adversário, larry constantine (Z).

(fim da lista de personagens)

enredo = personagem x, personagem y e personagem z.

(limpa a tela)

end.”

(Pág. 38)

Tradutor: Sóstenes da Silva.

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E eu ali, todo quieto

Walter P. Peixoto

E eu ali, todo quieto – 2000 – Moses Editorial

Brasil

(1978)

O taxidermista Samuel vive do seu trabalho em Goiânia até que descobre uma terrível doença que, pouco a pouco, está destruindo seu corpo. O fiapo de enredo se desenrola em 12 capítulos que correspondem a 12 tentativas do personagem enganar a morte com uma obra de arte. Temos a descrição de um projeto por capítulo, onde se sobressai a linguagem ensaística. Uma casa inteiramente feita de carne no capítulo um; Uma estátua do próprio narrador em tamanho natural onde se projetam filmes Super 8 feitos pelo seu pai no capítulo dois; Um filme de sexo entre o narrador e sua esposa que nunca tem fim no capítulo três;  Moldes feitos de gesso do quinta da sua casa no capítulo quatro e assim por diante.  O autor parece querer nos dizer que a literatura é a vida empalhada, imobilizada: um artefato que tenta ser sem de fato ser. E eu ali todo quieto ilustra com perfeição (ou quase, já que é uma tentativa) a definição de Cortázar sobre a narrativa breve: “Um caracol de linguagem, uma síntese viva e uma vida sintetizada…um tremor de água dentro de um cristal”.  E eu ali todo quieto é exemplar único, e não catalogado, da literatura de revolta. Revolta contra a breviedade da vida. Revolta contra a incapacidade de literatura. Essa chave de leitura, observada pelo crítico Julian Cardoni, ganha força quando observamos que o autor deixou o livro premeditadamente inacabado. O suicídio do texto. Walter P. Peixoto descarnou a língua, retirou o seu sangue e colocou algo no lugar.

Trechos:

“Os miolos também se retiram da caixa craniana por meio de uma ou mais mechas de algodão, presas em uma haste de arame grosso, o que facilitará a limpeza de todos os resíduos.” (Pág. 54)

“O silêncio das sereias de Kafka preenchido, devidamente preenchido.” (Pág. 87)

“Sangue de milagrosa translucidez. Minha casa feita inteiramente de carne, seus cômodos. Uma luz pálida a atravessa. E eu ali, todo quieto, sentado em um banco, também ele feito todo de carne.” (Pág. 103)

“Só quem não está à vontade com sua língua pode usá-la como bisturi.” (Pág. 129)

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Cópula

Charles Siggi Waltz

Cópula – Ed. Mandradore – 1986.

Estados Unidos

(1938)

Cópula é um romance vertiginoso e profano. Aqui o leitor vai encontrar a história de Primeira Pessoa, o narrador que busca lembrar a última conversa que teve com Terceira Pessoa, sua amante morta. Primeira Pessoa é um crítico literário desempregado que ganha a vida como detetive particular na Los Angeles dos anos oitenta e que, escrevendo sua autobiografia, quer, a todo custo, lembrar com exatidão as palavras daquela noite. Essa busca parece levar o narrador à loucura. Primeira Pessoa acredita, em alguns momentos, que é uma reencarnação de Raimundo Lúlio. Cópula, de Charles Siggi Waltz não obteve muito sucesso até ser redescoberto pelo crítico literário John Farrel no final dos anos noventa. O romance de Waltz, hoje aposentado, é uma reflexão sobre as interações complexas entre críticos literários e obras, escrito em uma prosa rápida, que se apropria dos clichês para renová-los. Ao mesmo tempo, é um livro verossímil, estranho, ominoso e até macabro.

Trechos:

“Não lembro bem,  estranho-e-fascinante-espelho-da-vida.” (Pág. 07)

“Quero escrever sobre ela. Sem ela minha vida fica sem sentido. Tenho quer ser, agora, o detetive de mim mesmo.” (Pág. 49)

“O passado assaltara-me novamente. Isso não pode ser um jogo, tem que haver um sentido, Deus não joga.” (Pág 82)

“Adoro o menino que há de sofrer a paixão, há de ser sepultado.” (Pág 167)

Tradução: Carolina Pires.

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