Figueroa Salcedo
Alguma coisa diferente narrada de uma maneira imperceptível– 1987 – Ed. Maipú.
Chile
(1958-1981)
Com uma câmera especial, um ex-estudante de arquitetura recém-chegado* à capital capta imagens dos olhos dos amigos e as projeta em balões gigantes espalhados pela Avenida Bernardo O´Higgins. O palácio de La Moneda atacado por globos oculares gigantes. A Plaza de Armas vigiada por um deus de gás hélio. Esse homem se chama Martín e vai ser preso. Ele, que não guarda nenhuma foto dos seus pais já mortos, vai desenhar com lápis e papel contrabandeados os rostos dos seus torturadores. Um livro completamente escrito no tempo verbal Futuro é uma ficção científica? Uma ficção? Um documento do que ainda vai acontecer ou do que já aconteceu e se repete sempre? Assim é esse Alguma coisa diferente narrada de uma maneira imperceptível, do chileno Figueroa Salcedo. “Um livro sobre a preocupação do que será dos nossos corpos”, segundo Julián Cardoni, crítico literário de Bogotá que escreveu o posfácio (chamado de Posfácio do posfácio) já que o próprio livro foi classificado pelo autor como um posfácio. Todo o livro. Será que o termo se referia à própria vida do autor, que seria “o livro”? Isso nunca será respondido, já que o autor se suicidou depois de terminá-lo. O que importa é que os balões com olhos gigantes ainda estarão voando por aí por muito tempo.
Trechos:
“O menino nunca contará a ninguém sobre os pelos que crescerão no seu corpo. O corpo nunca contará ao menino que um dia vai deixar de ser seu.” (Pág. 23)
“O tempo se contrai. Como um rato morrendo ou um isopor ao fogo.” (Pág. 37)
“A língua vai me vingar.” (Pág. 97)
“Está escrito assim esse posfácio.” (Pág. 120)
*Recém-chegado no sentido kafkiano da palavra Ankömmlinge. O estrangeiro que não conhece os costumes e a moral e sequer habita um mundo.
Tradução: Antonio Marcos Pereira.







