Livros que você precisa ler

O gato

Bjarne Wigner

O Gato – Ed. Maipú – 1978.

Dinamarca

(1903-1987)

Bjarne Wigner escreveu 25 romances, mas apenas um se tornou célebre. O belo e controverso O gato acompanha a vida de Soseki, claro, um gato. O nome do personagem é uma homenagem ao escritor japonês Natsume Soseki, autor de Eu sou um gato, publicado em série a partir de janeiro de 1905 na revista Hototogisu. Mas o gato de Wigner é mais uma mistura entre o Gato de Cheshire, de Alice no País das Maravilhas, e o Gato de Schröndiger, da física quântica. Assim o gato, que é o narrador, está e não está na cena. Observa e não-observa. Narra e não-narra. A história começa com o dono do gato apanhando da polícia em um parque em Copenhague. A violência aumenta quando o homem junta um grupo de amigos para se vingar dos policiais. O leitor irá acompanhar uma série de torturas e vendetas cada vez mais fortes, sem que os personagens se perguntem o porquê do que estão fazendo. O vai e vem da violência imprime um ritmo sempre novo à trama e ao narrador, que desliza entre a primeira e a terceira pessoa. O texto se repete sempre com alterações mínimas, fazendo do enredo simples, um mosaico de observações por vezes contraditórias. O escritor gaúcho Antônio Xerxenesky, através de Albert Camus, disse que criar é viver duas vezes. E é isso que acontece aqui. O animal parece viver duas realidades diferentes, duas vidas. Soseki e seu dono acompanham a escalada de violência ora dentro, ora fora dos acontecimentos. O romance produz uma ânsia por alguma certeza, por alguma perspectiva no mundo líquido atual.

Trechos:

“Eu tenho quatro patas, sou um quadrúpede, sou um gato. Se tenho ou não tenho alma, tanto faz. O que importa é que estou falando e calando. E isso é e não é minha alma saindo pela boca.” (Pág. 13)

“Eu não tenho quatro patas, não sou um quadrúpede, não sou um gato. Se não tenho ou tenho alma, tanto faz. O que importa é que não estou falando e não estou calando. E isso não é e é minha alma que não está saindo pela boca.” (Pág. 22)

“Correr para adiante e finalmente alcançar o passado, é isso que ele vai fazer? Eu sou um gato e só me permito olhar com meus dois olhos grandes como luas cheias.” (Pág. 46)

“Ficar parado, não correr, deixar o passado me ultrapassar, é isso que eu vou fazer? Eu não sou um gato e não me permito olhar com meus dois olhos grandes como luas cheias.” (Pág. 66)

Tradução: Nicole Rasmussen.

O gato de Cheshire imaginado por John Tenniel.

About these ads

4 comentários em “O gato

  1. Mamangava
    19/11/2010

    Esse livro é realmente muito interessante. Por vários motivos. Leitura que agrada a gostos distintos. Mais que recomendo.

  2. Bernardo
    14/07/2011

    Mamangava é leitor fiel.

  3. Vim aplaudir, e não apenas porque homenagear a Soseki Natsume é homenagear meus ancestrais e toda a herança nipônica que eu, como mestiço e nipo-brasileiro, represento, mas porque o livro é mais uma evidencia de que a Literatura é um fluido circulante sem nação e sem dono. Formidável o comentário, Bernardo.

  4. Bernardo
    29/08/2012

    “A Literatura é um fluido circulante sem nação e sem dono.”

    Vou tatuar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 08/11/2010 por .
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 64 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: