Livros que você precisa ler

Biografia de Tudo

 

Patricia Dewantara

Biografia de Tudo – 2001- Ed. Rumos.

Indonésia.

(1975)

Patricia Dewantara se propôs a uma tarefa nada fácil. Escrever uma biografia de tudo o que existe: o universo, Deus, todas as coisas, o homem, a dor, as drogas, o tempo, a guerra, a morte, a vida, os filhos, a linguagem, os meses, as doenças, os cães, a sabedoria, o suor, a gravidez, os peixes, os barcos, o barroco, as cores, os marsupiais, as estrelas e os planetas, a carne, os olhos e a boca, as ondas, o sexo, a Revolução Mexicana, os livros, os países, o fim, enfim, tudo. Aliás é esse o nome do seu primeiro livro traduzido no Brasil. Biografia de Tudo. Em grandeza o livro só rivaliza com o colossal Uma História Oral do Nosso Tempo, de Joe Gould. Antes de Biografia a autora escreveu Aku Cinta Padamu e Saya Perlu, ambos escritos em língua indonésia. O primeiro conta a história de amor telepática entre um rei prússio e uma plebéia javanesa. O segundo é uma novela em que cada homem funda sua própria república, tendo apenas si mesmo como presidente, cidadão e embaixador. Biografia de tudo mistura reflexões pessoais, poéticas e um texto científico altamente rigoroso. Dewantara tem um fascínio particular pela memória humana. Tudo em seus livros parece querer abarcar todas as coisas ao mesmo tempo que a linguagem enlouquece gradativamente exatamente por não poder conter tudo. Aku Cinta Padamu recebeu o prêmio Sahitya Akademi, o mais prestigiado da Índia. Biografia de tudo pode ter como destino o Nobel ou a lata do lixo, com igual merecimento. Dividido em duas partes principais, Dia e Noite, que nunca se tocam e sugerem uma estrutura em forma de Alça de Moebius, o livro merece ser não lido, mas vivido. A crítica considera Georg Dumitrescu seu precursor.

Trechos:

“Na minha infância também tive eu um país. Eu era médico, juiz, aposentado, operário, prefeito e ambulante. Mas digo um país mesmo, um país com emblemas, muitos emblemas, bandeira, escudo e hino nacional. Um país que cantava dentro da minha cabeça, que se prostrava sob meus pés e tomava conta dos meus braços.” (pág. 199)

“Na minha casa os objetos me esperam chegar do trabalho. Fazem como cães, cães velhos e cegos latindo contra a parede. Entre os objetos está a pia. Peço que ela me adote. E ela me adota.” (pág. 289)

“Não se ri e não se chora de repente. É com o acúmulo de vinte vidas que se aprende o ofício. Se ri e se chora de espanto. Este espanto que a gente aprende a conquistar. O meu espanto anda comigo: nos meus bolsos, nos meus livros, no cinto, nas meias velhas, nos olhos.” (pág. 334)

Tradução: Antonio Marcos Pereira.

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2 comentários em “Biografia de Tudo

  1. heitor
    19/09/2008

    “O meu espanto anda comigo: nos meus bolsos, nos meus livros, no cinto, nas meias velhas, nos olhos.” (pág. 334)

    frase matadora.

  2. Ali
    13/10/2008

    Grande livro. Possivelmente, um dos melhores já escritos. Em 2003, com quase 30 anos de atraso, Bill Bryson tenta emular a genialidade de Dewantara, com o seu Breve História de Quase Tudo. Mas não chega aos pés. A genialidade da autora reside na superficialidade profunda de sua linguagem. A maior metonímia de todos os tempos.

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Publicado em 17/09/2008 por .
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