Livros que você precisa ler

Entrevista com Martii Pallasmaa

 

O finlandês Martii Pallasmaa é um dos escritores mais surpreendentes da nossa época. O autor de Saippuakauppias (ou o Vendedor de Sabão) concedeu uma entrevista exclusiva ao blog Livros Que Você Precisa Ler, onde fala da sua obra, do seu envolvimento em um caso de atentado violento ao pudor, Os Silabistas, cinema sueco, David Lynch e da sua nova obra inacabada, o romance Dias frios.

Livros Que Você Precisa Ler – Quando o senhor pretende publicar Dias Frios?

Martii Pallasmaa – Nada me obriga a terminá-lo. A obra inacabada, na verdade, é superior à obra terminada. Isso porque o ser humano é inacabado. E, sendo assim, a obra inacabada é mais realista e completa porque insere melhor o homem em si.

LQVPL – Você costuma ler novos autores?

M.P. – O meu trabalho é ler novos autores. Porém só leio aqueles que publicam em jornais vespertinos. É uma mania que trago da juventude. Acredito que os erros decorrentes da pressa melhoram o texto e o papel jornal é mais propício que o livro propriamente.

LQVPL – Ocorre-lhe algum exemplo?

M.P – Bom, o pessoal do grupo intitulado Os Silabistas só publicava em jornal. Isso porque escrevi umas baboseiras em um jornal de Helsinki, dez regras para o escritor do futuro, ou algo assim, uma espécie de dogma a ser seguido. Se não me engano o tópico sete era este: só publicar em jornal. Eles me levaram muito à sério. Na verdade o que importa é publicar. Acompanho até textos na Internet. Você sabe, o meu país é frio e as cidades são distantes umas das outras, sem a Internet viveríamos de maneira pior.

LQVPL – Você costuma usar a Internet sempre?

M.P – Olha, não sei onde você está querendo chegar. Se quer falar sobre o meu envolvimento no caso de atentado violento ao pudor, saiba que já cumpri minha pena. Não falarei mais nada sobre a minha vida pessoal. Ela é fria como a prisão de Hangkoor. Prefiro minha vida assim, também inacabada. Sempre um novo fim pensado e nunca realizado. Voltando aos Silabistas, rompi com Khan depois que ele me chamou de bêbado na TV francesa. Mas gostava dos seus poemas. A variação tonal da sílaba Ma é riquíssima, e foi explorada muitíssimo bem principalmente no poema Cavalo. É, sem dúvida, o grande poema desta escola. Escrevi um conto curto, ainda inédito, que se chama O Chinês. Pretendo publicá-lo em algum jornal do norte da Europa. Trata-se de um pedido de reconciliação. Quero morrer em paz com minha consciência. E como dizia o escritor húngaro Ferenc Mavag: “ Há algum tempo que estou horrorizado comigo mesmo.”

LQVPL – O cinema sempre desempenhou um papel importante na sua vida?

M.P – O cinema é minha vida. Bergaman o meu Deus. Aceitei a propsta do Lynch (David Lynch, cineasta americano). Mas o filme era uma colagem de várias obras, não achei que deveria ir às telas. Iria dar uma idéia errada dos meus livros. A imaginação dele é fértil. Mas o uso do Palíndromo não ficou claro, isso funciona apenas no papel, penso eu. Concordo com ele em um ponto. A vida é sonho. E acabou.

LQVPL – A entrevista?

M.P. – Não, a vida!

LQVPL – Mas você falava de David Lynch e Bergman…

M.P. Nos últimos anos, eu era uma das raras pessoas com quem Bergman mantinha contato. Ele me confidenciou que pretendia filmar meu primeiro livro Irlandeses em Estocolmo. Mas falávamos a maioria das vezes de música. Ele adorava Puccini. Morreu à hora do lobo, entre as 4 e 5 da manhã, à hora, segundo se diz, em que as pessoas nascem ou morrem.

LQVPL – Quais os livros que levaria para uma ilha deserta?

M.P – Acho O Homem Evoluído, de William “Perro” Valdez fundamental. Mas se tivesse que escolher apenas uma obra, ficaria com Areia nos Olhos, de Katherine Muss, pela inovação vocabular e pelo conteúdo político revolucionário.

* entrevista conduzida por Tiago A em inglês e traduzida para o português por Bianca Peixoto em 19/09/2008.

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5 comentários em “Entrevista com Martii Pallasmaa

  1. heitor
    24/09/2008

    fiquei incrível com essa entrevista, tanta frieza, clareza e certeza nas respostas, não sei como ele é mas imagino um pai mei da vida, o ser humano inacabado é uma verdade muito verdadeira, verídica e cruel.

    cada vez mais esse blog me impressiona e me traz até aqui, depois da minha chegada aqui percorro a procura das obras que me levam até elas e depois de lida me levam a outros lugares e depois de tantas voltas me deixam aqui novamente com os livros que eu preciso ler.

    obrigado mais uma vez bernardo.

  2. Lus
    24/09/2008

    assino embaixo o que heitor disse.

  3. Lus
    24/09/2008

    que trocadilho horrível esse meu.

  4. tiago a.
    25/09/2008

    Clareza e certeza, sim, Heitor. Frieza, não. Como todo filandês, Pallasmaa foi gentil o tempo todo. Durante a maior parte do tempo falamos em inglês, é verdade, mas ele sabe um pouco de português e até me mostrou uma versão que fez praquele poema famoso de Drummond, que copiei no meu passaporte e transcrevo a seguir:

    Vuonna keskellä tietä oli kivi
    Toukokuu oli kiven tie
    oli kivi
    ja keskellä tietä oli kivi.

    En koskaan unohda tätä tapahtumaa
    vuonna elämää minun retinas niin väsyneenä.
    Koskaan unohtaa, että keskellä tietä
    oli kivi
    Hän oli kiven keskellä tietä
    ja keskellä tietä oli kivi.

  5. Pedro Paes
    16/10/2008

    Incrível como até em finlandês o sentido das palavras não se perdeu. Quem é mais genial: Drummond ou Pallasmaa?

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Publicado em 23/09/2008 por .
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