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A Capela dos Homens-Dragão

A Capela dos Homens-Dragão – 2006 – Ed. Lotus.

Shimabukuro Taro
Japão
(1975)

Muito já se comparou a arte da caligrafia japonesa com o manejo das espadas. Mas para o escritor japonês Shimabukuro Taro melhor seria comparar a primeira com o uso do bisturi. Neurocirurgião nascido em Tóquio, mas descendente de família cristã de Okinawa, Shimabukuro destaca-se pelo flerte com a cultura kitsch, suas histórias contém sempre um elemento de horror que empurra a narrativa para a frente, sempre se misturando com o humor e a crítica social. Irônico e quase sempre metanarrativo, compara a sua ficção com as suas intervenções cirúrgicas, afirmando que o corpo é o maior livro. O sangue é tinta. E só Deus é autor verdadeiro. Julian Cardoni, crítico literário do jornal El Paseo, de Bogotá, o considera “um dos 10 escritores para 2010”. Ainda segundo Cardoni, Shimabukuro é herdeiro de H.H. Munro, o Saki. O volume A Capela dos Homens-Dragão é o único livro do autor lançado por editora, todos os outros trabalhos são publicados em fanzines obscuros da Ásia e Europa. A narrativa mais elogiada do livro é a ficção científica 2066, que reproduzimos abaixo com tradução de Carlos Mizue.

2066

O ano é este de 2066. Mas poderia bem ser o de 2068. A mais nova mutação do vírus Solanum (isolado em laboratório pela primeira vez em 2008 por Jan Vanderhaven) se espalha sobre a Terra fazendo ressuscitar os mortos. Mas não todos. A praga de 2066 (ou 2068 ) foi diferente por ter atacado apenas os cadáveres que tiveram, em vida, intensa atividade na região do cérebro conhecida como Área do Formato Visual da Palavra (WVFA, sigla em inglês). Assim, esse levante – sim estamos falando de um levante de zumbis, se você está lendo isso é porque está vivo, com a WVFA intacta e já viu pelo menos um filme de zumbis no cinema ou na televisão – foi diferente dos levantes mais recentes acontecidos em Jaffa, cidade na costa da Palestina, e o grande ataque que se abateu sobre os colonos de Fiskurhofn, Groenlândia (onde 15 pessoas sobreviveram graças a perícia e a força do líder dos colonos, Gonnbjorn Lundengaart). Nessa epidemia de 2006 (ou 2064) apenas escritores se levantaram de suas tumbas. O primeiro (pelo menos o primeiro que sabemos, podem haver outros) a ressuscitar foi Gilbert K. Chesterton, como noticiaram na época os jornais. Talvez pela fé católica na vida após a morte, declararam uns. Os 160 quilos do autor se levantaram com imensa dificuldade ainda no mês de março. Apenas dois dias depois foi a vez de Edgar Allan Poe, esse, mais ágil, atacava pessoas e animais com fartas dentadas enquanto tremia como se sofresse de febre. Roberto Bolaño (um grande buraco onde foi um dia o fígado) apenas observava outros se levantarem. Em ordem de aparições: Ha Jin, Georges Perec, Alfred Hitchcock, William Faulkner, Alfred Jarry, Gustave Flaubert, Arthur C. Clarck, William Saroyan, Mikhail Bulgakov. Relatos de sobreviventes contam que o corpo reanimado de quem um dia foi Vladimir Nabokov atacava outros zumbis com voracidade. O autor de Fogo Pálido teria destroçado a dentadas o pescoço do morto-vivo que outrora foi Dostoiévski. Um líquido viscoso negro jorrou do seu pescoço, deixando algo como uma lama na calçada, fazendo cair o corpo em perfeito estado de Nikolai Gogol. Outro caso atribuído a esse levante, mas cremos que é inverídico, conta que Jorge Luis Borges vagava pelas ruas à meia-noite sem atacar humanos ou ser atacado, às vezes esbarrando em carros abandonados nas ruas, mas sempre rumando para uma biblioteca, o que, segundo os estudiosos, era uma espécie de resquício de memória. Conta-se ainda, com certa alegria, que Franz Kafka preferiu não se levantar da tumba em que foi encontrado. Apenas piscava os olhos timidamente. O ano é este de 2066 (mas poderia ter sido há cem anos, cremos em uma fatalidade). Ano em que nada aconteceu até o despertar de uma horda deescritores. O ano em que muitos afirmam ter visto Louis-FerdinandCéline atacando e devorando até vinte humanos. O ano em que o exército dos Estados Unidos capturou o corpo reanimado de Jack Kerouac e descobriu que o levante desse ano, diferentemente, por exemplo, do levante acontecido em Beijing trinta anos antes, teve a participação apenas de corpos de escritores pois a mutação do Solanum atacava cérebros com a Área do Formato Visual da Palavra mais desenvolvida. Estudos comprovavam que a variação do vírus Solanum, quando injetada em um corpo de não-escritor, desaparecia em três dias sem indício de reanimação. O episódio conhecido como Caso Denver, em que o cemitério da cidade foi violado pelo próprio exército americano confirma a tese. Alguns afirmam que o corpo de Walt Withman se encontra acorrentado no Departamento de Defesa. Conta-se, ainda, que o seu corpo também teria sido violado, sexualmente, pelos soldados.
“Em seu famoso livro de 1951, The Sun Rose on Hell, um ex-oficial da inteligência dos EUA, chamado David Shore, relata uma série de experimentos biológicos realizados durante a guerra por uma equipe militar japonesa conhecida como Dragão Negro. Um dos seus experimentos, que recebeu o nome de Botão de Cereja, foi organizado com o objetivo específico de criar e treinar zumbis para a formação de um exército…”
“Os resultados obtidos pela Dragão Negro, após a guerra-fria, foram contrabandeados para os EUA. Em 1955, no Oregon, foi criada a Black Sun, organização secreta apoiada pelos militares e pelo governo federal que realizou os primeiros experimentos com algum sucesso.”
Os trechos acima foram retirados da investigação do jornal New YorkTimes sobre a origem do Caso Denver, realizada por Bob McCalster. Segundo o jornalista, o levante de 2066 (ou de 2084, difícil saber ao certo) teria sido proposital, um experimento do governo dos EUA, uma espécie de seleção antinatural (expressão usada por McCalster). A lenda de que o poeta Walt Withman esteja ainda acorrentado no Departamento de Defesa é controversa. Segundo alguns outros, difícil precisar quem, a antiga prisão de Guantánamo seria o verdadeiro paradeiro do autor americano, ou pelo menos do corpo dele. Ele estaria na companhia de outros como Cormac McCarthy, H.L. Mencken, Alfredo Bryce Echenique e (apenas segundo alguns) Ray Bradbury. Estes fatos, se podemos chamá-los assim, vieram à tona apenas depois do grande levante desse ano e do contra-ataque humano. Fala-se em milhares de mortos. Dados oficiais apontam 109 humanos devorados. O número de escritores ressuscitados é impossível precisar. O governo não divulgaos números. Mas diz-se que pelo menos 7 corpos foram destruídos parasempre: Daniil Kharms, Juan Rulfo, Raymond Chandler, Astrid Lindgren, D.H. Lawrence, Henry Green e Aryoshi Sawako.

Tradução: Carlos Fujioka.

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2 comentários em “A Capela dos Homens-Dragão

  1. silzs
    28/10/2008

    alguém já deveria ter previsto que essa academia zumbizesca de letras seria um encontro e tanto. mas, pensando bem, ainda que não fossem zumbis, se houvesse mesmo um encontro entre esses escritores não haveria uma conversa descente. os egos não iam deixar.

  2. m.
    29/10/2008

    porra, curraram o whitman! logo ele que era bonzinho com os soldados…

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Publicado em 27/10/2008 por .
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