Livros que você precisa ler

Descarnados

Descarnados

W. García Morello – Ed. Maipu – 1994.

Peru

(1940)

É sabida a fixação quase psicótica de Walter García Morello em personagens antropozoomórficos. Homens com cabeça de abutre, tigre e leão. Mulheres com cabeça de gato, peixe e carneiro. Essa característica está presente em quase todos os seus romances, seja em sonhos ou não. Foi assim em Os cinco hábitos dos escritores loucos. Mas é em Panteão e Descarnados que Morello atinge o seu ápice criativo, no primeiro livro o narrador é o escritor argentino Jorge Luis Borges. No segundo o autor costura sonhos, lembranças infantis, referências metaliterárias e muito mais. O muito mais: o personagem principal, que tem Morello também como nome, é um ator pornográfico e poeta amador que coleciona fotos de Cortázar num quarto imundo de Lima. Segundo o crítico colombiano Julian Cardoni, Descarnados é “pleno de hilária inventividade e de ambição pós-moderna, insere-se na melhor tradição borgiana”. Morello não publicou nada desde 1994, data de lançamento de Descarnados. Teve, contudo, uma fracassada tentativa de tomar o poder político através da luta armada em um pequeno povoado da amazônia peruana.

Trecho:

“O arroto do bicho era cruel, de meter medo. A barriga balofa e os dentes de javali apareciam certos na cabeça dos meninos quando Vovó abria a pia. Era feio, esse porco. Tinha uma gestação muito certa e parecia hibernar. Vivia só assim: dormindo, comendo através do ralo e procriando indefinidamente. Mergulhado em um mar imenso, imerso, de líquido amniótico, expelindo fetos-porco por todas as torneiras dacasa, o bicho-feio dormia na barriga dos canos velhos e começava a acordar quando Vovó ia para a pia. Nhéc-nhéc-nhéc. O cheiro de Emulsão Scott o deixava assustado e com medo, friorento. Era estranho este porco. Platelminto-porco. Cenobita-porco. Tartamudo-porco. Pla-Cent-Ta. Uma tríade. Pior só o porco sujo. Num dia, de certa feita, mão de Vovó deslizou sobre a torneira: um dedo, depois outro e outro. Abria. Arrooooooto. A pança balançando infinitamente. O fedorento deixava restos de leite coalhado e nata boiando na pia batismal. E, depois, só uma gotinha na torneira. A gota, meio assustada, custava a colocar o corpo para fora. Sem ligeireza a barriga lhe crescia. Mas não se libertava. Tinha medo.Voltava para a toca. A toca onde era devorada como todas as outras coisas, até pesadelos. Era devorada num banquete pelo gordo porco que mora preso no prenhe dos canos. O porco que entope com a sua banha amarelecenta os cômodos da nossa casa.” (Págs. 99/100)

Cortázar é personagem de Descarnados.

Cortázar é personagem de Descarnados.

Tradução: Eveline Dias.

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Publicado em 03/03/2009 por .
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