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Bartolomeu Maduque: cartas íntimas

maduque

A viúva do escritor Bartolomeu Maduque, Maria Carvalho de Sena, anunciou hoje que vai entregar o espólio do autor sergipano, morto em 2007, à Bibiloteca Nacional, no Rio de Janeiro. O diretor da biblioteca Epitácio de Souza declarou que “a compreensão por parte dos familiares, sobretudo do valor bibliográfico e cultural extraordinário das suas cartas íntimas, é digno de aplauso público”. O autor já esteve presente neste blog com o livro Cumpra-se. Abaixo o trecho de uma carta datada de 07/04/1967 endereçada a si mesmo:

“Cheguei atrasado para a festa da vida e da morte. Cheguei em companhia de quem nem conhecia. Mas, mesmo assim, mesmo estando só, mesmo estando só de passagem, fizeram-me esperar à porta. O riso, não celebrado, não aconteceu de novo. E tudo ficou tão tarde. Desejei passear um pouco lá fora e acompanhar o cortejo de árvores. Tranquei-me sujo com o mijo escuro da noite. Tranquei-me com mil pássaros. Tranquei-me com um pouco da própria carne entre os dentes. Meu medo, enfim, por fim, sem riso celebrado, desencabulou-se e saiu de casa. Foi apanhar-me no meio da rua.”

E outro de carta de 27/09/1975, endereçada novamente a si mesmo:

“Minha bagagem é meu corpo. Há um compartimento, fechado, do qual sirvo-me. É onde guardo o meu olhar, meus olhos fechados, minha vida embrulhada, meus pensamentos devidamente empacotados em embalagens sortidas. Nos olhos fechados das fotografias conheço o meu próprio sorriso tímido. E, num zíper, tenho-me. Alfabetizo-me. Vivo-me. Desmascaro-me. E volto a me mascarar. A vida, vejo por dentro, não cabe aqui: alguma coisa vai ter que ficar de fora. Mas é difícil escolher. Me arrisco fora de mim.”

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4 comentários em “Bartolomeu Maduque: cartas íntimas

  1. Myriam Kazue
    07/05/2009

    Cara, fiquei pasma. Essas cartas são o próprio poeta Ferreira Gullar:

    […]
    Não quero assustar ninguém.
    Mas se todos se escondem no sorriso
    na palavra medida
    devo dizer
    que o poeta gullar é uma criança
    que não consegue morrer
    e que pode
    a qualquer momento
    desintegrar-se em soluços.

    […]
    Só disponho do meu corpo
    para operar o milagre
    esse milagre
    que a vida traz
    e zás
    dissipa às gargalhadas.

    [“Detrás do rosto”]

  2. Bernardo
    07/05/2009

    Myriam, será que o poeta maranhense teve acesso a essas cartas? Será que ele copiou horas a fio o estilo de Maduque sentado na cama? É possível. Não queria falar em plágio agora. Acho prematuro.

  3. Teno
    07/05/2009

    Da-lhe Berna. Show de bola.
    E o conto SW16 6PF quando sai???
    Abracao

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Publicado em 06/05/2009 por .
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