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Muito escroto, escroto, muito escroto

Kathlyn Wolf

Muito escroto, escroto, muito escroto – Editora Mandrágora – 2010.

Canadá/Brasil

(1976)

A escritora canadense Kathlyn Wolf mudou-se para Brasília aos dezesseis anos, aqui permaneceu e escreveu esse seu primeiro livro, Muito escroto, escroto, muito escroto, lançado este mês pela Editora Mandrágora. Trata-se de uma história passada na Silésia, terra dos avós maternos de Wolf (cujo sobrenome de  batismo é Kronm). Opva é uma mulher cujo marido foi morto na Segunda Grande Guerra. Ao saber disso, ela entra em transe silencioso. A partir daí o leitor acompanha o monólogo de um personagem, o vento, que ocupa mais de dois terços da obra. Outros personagens aparecem e reaparecem se recombinando, como num mosaico incessante. Eles não têm nome. São chamados apenas Escrotos, entidades que representam o medo, a dor, a perda e o choro. A escrita de Kathlyn Wolf  parece ter sido influenciada por Hilda Hilst ou Haroldo Maranhão. A escritora escolhe as palavras pelos sons, procurando descobrir suas verdadeiras plumagens. Muito escroto, escroto, muito escroto, enfim, é um rico panorama da dor humana, onde só há beleza na linguagem, que é o único Deus.

Trechos:

“Eu sou o vento, eu sou seu pai.” (Pág.66)

“A matemática esdrúxula dos átomos não está em mim. Não a reconheço. Como não reconheço o alfabeto de pêlos caídos na mesa branca. O ar, átomos em cópula, não está em mim. Eu, assim, sem o ar. Entre uma brecha da vida e outra vou respirando, sobrevivendo. Afastando com mãos invisíveis as pedras, o calcário. Tem dias que até o ar é sólido. Eu continuo. Desenvolvo brânquias. Respiro profundezas abissais. Penso nas moléculas de oxigênio agarrando-se em mim, fugindo de mim. Zombando de mim. Ar. Ar. Ar. Estranho nome. Parece o nome de uma cidade perdida na Suméria: Ar, Ur, Uruk, Lagash. O ar é fossilizado. Mumificado. O ar de barba dolorosa. O ar de Etemananki. Um deus com asas.” (Pág. 129)

“Opva. Menina, língua de toda fome, esperava pelo outro, e ele iria buscá-la para dançar a vida. De novo. Ela iria com condição de não beijo. Pensava em uma e tinha outra na boca. Lembrou-se do tiro que dera neste homem há tempos: uma flor linda de vermelha que lhe crescia na lapela. Traição. Mas agora o que havia era o perdão. E o descomeço, que é pelo fim recomeçar: descobrir a música de trás para frente. Mas a história é que ele, o homem, no de ir buscá-la, virou-se para beijo, fonte de tanta fome. Quando virou-se, quebrou todas as regras debaixo. Menina ali permaneceu. Até hoje, dizem. Ali.” (Pág. 192)

O lançamento de Muito escroto, escroto, muito escroto acontece no dia 20 deste mês na Livraria Odessa, em Brasília, às 20 horas.

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6 comentários em “Muito escroto, escroto, muito escroto

  1. Beto Camargo
    18/05/2010

    “Eu sou o vento, eu sou seu pai.”

    A frase é citada na canção Vento Paterno de Oswaldo Montenegro, do disco Candango Lunar (1979). Bernardo, vc me trouxe belas lembranças dos saraus daUnB e o Meu Deus saúda o Seu Deus por isso.

  2. Bernardo
    21/05/2010

    Que grande prazer sua visita aqui, Camargo. Abraço.

  3. gianni
    30/05/2010

    Onde se pode encontrar este livro?

  4. gianni
    30/05/2010

    Receio não poder encontrá-lo.

  5. Bernardo
    31/05/2010

    Ao procurar você já encontrou, Gianni. Abraço.

  6. Teno
    25/06/2010

    Berna, que qualidade, hein?!!!!
    Muito bom.

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Publicado em 13/05/2010 por .
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