Livros que você precisa ler

Serondino

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Serondino – 2011 – Ed. Maipú.

Svenja Spagnol

Brasil

(1975)

Brasileira, filha de italiano e alemã, Svenja lançou há poucos dias o seu primeiro romance, Serondino.  Um estranho romance. Mistura de biografia do escritor argentino Juan José Saer, ensaio que afirma que Shakespeare e Cao Xueqin – autor de O sonho do pavilhão vermelho – são a mesma pessoa e narrativa sobre um professor universitário chamado A, que, por sua vez, tenta escrever a biografia de Saer em outro plano enquanto dá aulas em Salvador para uma turma que mais parece saída de um livro de Walser ou Gombrowicz. Com mais de quinhentas páginas escritas em um estilo único, mas que por vezes lembra W.G. Sebald, Serondino é um romance caudaloso que merece atenção dos leitores, da crítica e da academia. É uma obra rica e variada num modo silencioso, longe dos grandes circuitos da publicidade literária de um mundo líquido, sempre nos lembrando que todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.

Trechos:

“…uma sirene de polícia, o barulho dos fogos na meia-noite, o ruído vivo de uma cidade em comoção. Corpos ardentes que não são meus, muito inebriados, celebrando o arbitrário, o vão, o viver. Va bene,penso com meus botões, e vou caminhando pela Corrientes tranquilo e esperançoso. Chega de ser adversário.” (Pág. 74)

“Estamos em Buenos Aires, e agorinha mesmo estava levando o lixo para fora: fechei o saco na cestinha, caiu um pouquinho de pó de café fora, fechei o saco direitinho, fui lá fora, voltei, fechei a porta, e depois fui pegar a pá e um pano pra limpar a sujeira e sacudir o pó no saco de lixo novo que coloquei na cesta, e essa é a vida. Era sábado de manhã, acordei cedo, fiz chá, estava ouvindo Another green world. Viveríamos bem em Buenos Aires, teríamos vivido como nobres no exílio, discretos e voluntariosos com nossos desejos miúdos.” (Pág. 127)

“O estilo de Cao Xueqin é desmontável, reverberando por novos e novos pavilhões, cada um com um sonho distinto. Conta-se que muito do que se conservou até hoje foi escrito por dois comentadores que anotavam à margem – uma glosa – com os pseudônimos de Pedra de Tinta e Velha Tabuleta. O primeiro tinha aproximadamente a mesma idade de Cao Xueqin. O segundo talvez seja o seu pai. Mas todos são Shakespeare, que deixou o escrito pronto antes da sua morte. Francis Bacon também seria um outro heterônimo do bardo de Stratford-upon-Avon…” (Pág. 276)

Tradução:  Miguel Rios.

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Um comentário em “Serondino

  1. Ricardo Garrido
    15/07/2014

    A retórica depreciada da Sra. Schweiszimmer na página 344 retrata bem a alcunha que lhe foi dada, e que se torna um apelo brilhantemente relevante para as próximas incisões atinentes a sua súbida servilidade diante de sua anuída chegada ao pavilhão vermelho. Tipicamente relatada nas versões graciosas, petulantes e matreiras do já supracitado Cao Xueqin. O autor está pasmosamente de parabéns.

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Publicado em 21/01/2011 por .
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