Livros que você precisa ler

E eu ali, todo quieto ganha prêmio na Feira Artística de Manizales, Colômbia.

O livro E eu ali, todo quieto, do autor paraibano radicado em Goiás Walter P. Peixoto, foi premiado com o troféu Álvaro Mutis como melhor ficção publicada no ano de 2000. A FAMA, Feira Artística de Manizales, escolheu um livro para cada ano da década passada nessa sua quarta e última edição. Assim, republicamos o post original sobre o livro aqui no blog.

Walter P. Peixoto

E eu ali, todo quieto – 2000 – Moses Editorial

Brasil

(1978)

O taxidermista Samuel vive do seu trabalho em Goiânia até que descobre uma terrível doença que, pouco a pouco, está destruindo seu corpo. O fiapo de enredo se desenrola em 12 capítulos que correspondem a 12 tentativas do personagem enganar a morte com uma obra de arte. Temos a descrição de um projeto por capítulo, onde se sobressai a linguagem ensaística. Uma casa inteiramente feita de carne no capítulo um; Uma estátua do próprio narrador em tamanho natural onde se projetam filmes Super 8 feitos pelo seu pai no capítulo dois; Um filme de sexo entre o narrador e sua esposa que nunca tem fim no capítulo três;  Moldes feitos de gesso do quintal da sua casa no capítulo quatro e assim por diante.  O autor parece querer nos dizer que a literatura é a vida empalhada, imobilizada: um artefato que tenta ser sem de fato ser. E eu ali todo quieto ilustra com perfeição (ou quase, já que é uma tentativa) a definição de Cortázar sobre a narrativa breve: “Um caracol de linguagem, uma síntese viva e uma vida sintetizada…um tremor de água dentro de um cristal”.  E eu ali todo quieto é exemplar único, e não catalogado, da literatura de revolta. Revolta contra a brevidade da vida. Revolta contra a incapacidade da literatura. Essa chave de leitura, observada pelo crítico Julian Cardoni, ganha força quando observamos que o autor deixou o livro premeditadamente inacabado. O suicídio do texto. Walter P. Peixoto descarnou a língua, retirou o seu sangue e colocou algo no lugar.

Trechos:

“Os miolos também se retiram da caixa craniana por meio de uma ou mais mechas de algodão, presas em uma haste de arame grosso, o que facilitará a limpeza de todos os resíduos.” (Pág. 54)

“O silêncio das sereias de Kafka preenchido, devidamente preenchido.” (Pág. 87)

“Sangue de milagrosa translucidez. Minha casa feita inteiramente de carne, seus cômodos. Uma luz pálida a atravessa. E eu ali, todo quieto, sentado em um banco, também ele feito todo de carne.” (Pág. 103)

“Só quem não está à vontade com sua língua pode usá-la como bisturi.” (Pág. 129)

Lembramos ainda que Peixoto foi usado como personagem pelo amazonense Euclides peres no seu Língua Levada:

Língua levada – 2010 – Ed. Barravento.

Euclides Peres

Brasil

(1955)

Língua levada, este primeiro romance do amazonense Euclides Peres, é narrado por um personagem que, às vezes com a dicção de uma criança, às vezes com a dicção de um adulto, tenta seduzir um interlocutor oculto. Dentro deste grande monólogo que muito se assemelha às gestas medievais, vemos surgir, na tessitura do texto, aqui e acolá, os personagens Walter O. e Ana. Dois apaixonados. Walter é identificado pelos parênteses, tem pouco folêgo. É dono de frases curtas. Já Ana fala por meio de travessões, irrompe com mais força, tem mais fôlego, formula frases mais longas. Estes dois personagens parecem submersos, sua identidade parece consumida pelo poder do primeiro narrador, que se confunde com o ser andrógino imaginado por Platão no seu Banquete.  Uma espécie primitiva de indivíduo, que só posteriormente teria se dividido em dois seres incompletos que se buscam, movidos pela força do amor. O amor em Platão é falta. O romance de Euclides Peres, assim, é sobre a busca da indentidade no mundo que busca desenfredamente o amor, o uno. Não é à toa que o nome dos personagens são Ana (Eu em árabe) e W.O (Wo, eu em chinês). Teminado o livro, uma pergunta fica no ar. Quem seria o interlocutor oculto? Um espelho ou um homem que é todos os homens diria Borges, Deus ou o Diabo diria Rosa, a arte no seu mais elevado grau, o amor intelectual, disse o crítico Julian Cardoni.

Trechos:

“Venha, monte cavalos, comigo eu, inteiro, somos cavalos (Queria este tempo de volta, queria poder tê-lo novamente) correndo. Rá, rá.” (Pág. 35)

“Vou preparar um festim para gozos – Eu, Ana, Eu, não sou criança como você, criança primordial, divinidade de toda gente, Eu sou Ana, eu sou Eu, e não só você – poderosos.” (Pág. 95)

“Buáááááá. A flecha de faia com três pernas, arremessada, arrancada, chorava, de mim, separada. Esse dia foi como o Dia do Juízo.” (Pág. 133)

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3 comentários em “E eu ali, todo quieto ganha prêmio na Feira Artística de Manizales, Colômbia.

  1. Enfim, Justiça. Parabens ao Walter e a seu trabalho consistente de divulgação dessa história silenciada da literatura no Brasil, Berna.

  2. Julyana
    11/07/2012

    Merecidíssimo!

  3. Bernardo
    11/07/2012

    Obrigado pela visita Antonio e Julyana. Semprei achei Walter um dos nossos melhores também.

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Publicado em 10/07/2012 por .
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