Livros que você precisa ler

Negra e bem brilhante

Zoya Kolorev

Negra e bem brilhante – 1968 – Ed. Delfos.

União Soviética

(1913-1989)

Ostraniene, o conceito formalista russo cunhado por Chklovski que afirma o processo artístico como a singularização dos objetos parece marcar essa curta novela de Zoya Kolorev, especialmente curiosa para o leitor brasileiro. Também a influência do simbolista Beliakhov e sua doutrina dos nomes são especialmente caros. Narrar é estranhar o modo como vemos o mundo. Narrar é distorcer o mundo como vemos de modo. Aqui temos a história do diabo que tenta roubar um a um os nomes de Deus. Enquanto temos a ação em um plano (o espiritual), acompanhamos a história de uma camponesa que acompanha o pai e a mãe à cidade e aí conhece um jovem brasileiro. Os diálogos são marcados pela fusão das duas culturas, onde a palavra Da aparece como sim em russo e o presente indicativo do verbo dar na terceira pessoa do singular. Singular é também a estranheza da linguagem, a estranheza do estrangeiro. O estranho como forma de ver o mundo. O fato de perder o nome (ou os próprios nomes no caso de Deus) como estranhamento e transformação em arte e, assim, realidade. Os nomes da camponesa russa e do jovem estudante brasileiro impronunciáveis um para o outro tornam-se tábuas de salvação. Segundo o crítico literário Julian Cardoni, do jornal El Paseo, de Bogotá, Negra e bem brilhante é um elogio da palavra, “pleno de prazer de narrar”. Note-se a ótima tradução de Rafael Pashtukhiev que manteve um outro leitmotiv do livro: as letras A, C, G e T, que se repetem sempre numa referência à sequência do DNA. A autora foi perseguida na União Soviética de Leonid Brejnev e Andrei Gromiko pelos seus temas e pela sua recusa de usar sobrenome e roupas femininas. Zoya Samutsevich Kolorev antes de ser escritora ainda foi amante de Mikhail Bulgakov.

No Brasil a editora Delfos optou por duas capas diferentes. Os conteúdos são igualmente diferentes.

Trechos relativos à capa 1:

“…tão estranho quanto a minha taxonomia, tão cruel quanto a minha taxonomia, um gárgula?” (Pág. 16)

“Ah, como um gato, um tatu, todos tartamudos.”  (pág. 79)

“…Da, Dá. Um nome é estranho por existir.” (Pág. 92)

Trechos relativos à capa 2:

“A palavra e seu código genético. Sua fita imensa se debruçando linha a linha, seu clac-clac de máquina de escrever a cada letra, a cada olho negro, a cada pele clara.” (Pág 29)

“As verdades que viriam à tona deixariam de ser verdades neste exato segundo, como a palavra se perde, só, no meio do palavrio…” (Pág. 57)

“Adicionaram minha mãe gasta àquele teto, um gosto na terra do jardim. Mas veio o gato. Trazer a comida do gato ficou impossível nesse teto.” (Pág. 82)

“Devolva-Me. Dê-Mo.” (Pág. 88)

Tradução: Rafael Pashtukhiev

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2 comentários em “Negra e bem brilhante

  1. Carlos Barbosa
    21/08/2012

    Cara, genial (sem o temor de desgastar o termo), “roubar um a um os nomes de Deus”. Isto aqui é um prato cheio de ideias bacanas, gozadas, fertéis e gratuitas, hein? Seu blog, creio, é único e referência de como se pode explorar o ciberespaço de forma criativa e original. Parabéns, mais uma vez. Abr (carlos barbosa)

    • Bernardo
      22/08/2012

      Obrigado, Carlos. Ficou muito feliz que esteja acompanhando os posts. Abraço.

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Publicado em 16/08/2012 por .
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