Livros que você precisa ler

Alcméon trabalha

Giacomo Semazato

Alcmeón trabalha – 1967 – Ed. Barravento.

Itália

(1935-2001)

No século VI antes de Cristo o estudioso Alcmeón, intrigado com o corpo dos animais, começa a dissecar galinhas, depois porcos, depois os corpos dos amigos mortos. Esta pequena sinopse não explica este romance de Giacomo Semazato. Mas talvez a imagem de um homem dissecando outro enquanto é dissecado ajude a ampliá-lo. Aqui, como na teoria do conto de Ricardo Piglia, temos uma história invisível se tecendo.  O leitor não a vê em princípio. Provavelmente não a verá nunca. Em uma cartada de ironia extremada, a história é contada por um homem invisível, uma espécie de projeção astral de um escritor que vive nos tempos atuais. O escritor, chamado Samuele Parodi, consegue essa projeção depois de experimentar uma nova droga que amplia a sua consciência, a Crise. Projeção no espaço e no tempo. Tempo, aliás, sempre presente porque ausente. Boa parte do romance é a descrição dos métodos de Alcméon e sua posterior perseguição por bruxaria. Em outro plano temos a procura dos traficantes pelo corpo de um Parodi endividado que jaz inerte na sala, diante da máquina de escrever. Muito já se disse que Alcméon trabalha é uma história invisível da crítica literária. Enquanto críticos nos é permitido apenas conjecturar. Mas, sem dúvida, é um livro que fala da ausência e seus epígonos. Semazato nasceu, cresceu e morreu na cidade de Udine, que já foi sede do patriarcado de Aquiléia. Foi escritor, ensaísta, crítico literário e médico-cirurgião. Adorava gatos por achar que eles são almas de parentes reencarnados.

Trechos:

“…te vejo, Alcméon, não podes me ver, meu corpo agora corre perigo e sempre correu desde que nasci, desde que nascemos.” (Pág. 18)

“…as cinco figuras: ossos, veias, artérias, órgãos internos e nervos. E um órgão invisível máximo, que não se disseca: o tempo.” (Pág. 64)

“Alarga a visão, a Crise. O escurecimento vem depressa, o desaparecimento é atroz. Alarga o fosso, a Crise.” (Pág. 77)

“…estou te olhando atento, Alcméon. Ambos gostamos só do que é de nossa família.”   (Pág. 97)

“Que minha mão seja tua mão, velho amigo, meu corpo está longe e o teu está em tuas mãos, pois é teu esse corpo.” (Pág. 121)

Tradução: Heitor Pontes

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2 comentários em “Alcméon trabalha

  1. Bernardo SOUSA
    05/09/2012

    Muito bom! Eu queria que ele existisse esse livro… lol

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Publicado em 31/08/2012 por .
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