Livros que você precisa ler

A máquina de medir a dor de Wong Kar-Wai

Pramaj Semanuang-Tonghlao

A máquina de medir a dor de Wong Kar-Wai – 2012 – Ed. Martes.

Tailândia

(1976)

O mundo muda quando a dor finalmente é medida. E quem inventa a máquina que mede as dores é o ex-cineasta Wong Kar-Wai. Pelo menos aqui, no mundo bizarro do escritor tailandês Pramaj Semanuang-Tonghlao. Kar-Wai, cansado do cinema, passa a estudar a mente e o corpo e inventa esta revolucionária máquina dotada de agulhas, pinças, cutelos e fotos antigas. As dores (físicas, mentais ou da alma) medidas, pesadas e calculadas, viram moedas de troca rapidamente. Pessoas trocam casas e roupas tomando a dor como medida. Contratos de dor são assinados. Pratos de comida têm valores calculados em dor. A história é contada a partir do ponto de vista de Auden, um enfermeiro que trata de suicidas em um hospital na periferia da cidade de Ratchaburi. Seu objetivo é destruir a máquina de Wong Kar-Wai e desmedir a dor novamente. Auden, pois, é um neoludista, um santo e um terrorista. Com personagens extremamente necessitados de atenção (um protossuicida que não se cansa de se ameaçar, uma cozinheira apaixonada pelos seus 300 cães) e uma história insidiosa, A máquina de medir a dor de Wong Kar-Wai é um livro sobre uma sociedade “sofrendo as dores do parto da transformação social e a desordem da história e dos seus valores”, segundo o crítico colombiano Julian Cardoni.  É um livro que não deve deixar de ser lido. Mesmo que isso implique em mais dor.

Trechos:

“A dor não deve ser medida, penso, assim recuperamos a liberdade de imaginá-la e tê-la. É a verdade. Um mapa, um mapinha da dor sequer e tudo foi por fogo abaixo.” (Pág. 58)

“A reconquista da dor também leva a outro problema, meu caro, eu sei, o problema é a consciência da nossa própria mortalidade. A dor com seus dedinhos quentes nos tocando, cada um de nós a só, e apontando o caminho a ser seguido.” (Pág. 119)

“É hora de desligar essas máquinas – são molestas – desliguemos estas – que gemem em alvoroço. Escrevam contra o céu o anúncio: a dor voltou.” (Pág. 162)

Tradução:  Alfredo Toracci.

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6 comentários em “A máquina de medir a dor de Wong Kar-Wai

  1. Marco Polli
    14/09/2012

    Depois de tantas resenhas, essa, para mim, é a melhor de todas.
    Preciso desse livro amanhã, ou a dor será insuportável.

  2. Bernardo
    14/09/2012

    Obrigado, Polli. Valeu, mais uma vez, pela visita.

  3. Fellipe Figueiroa
    14/09/2012

    A resenha é boa mas tem spoilers. Cuidado.

    • Bernardo
      14/09/2012

      A dor é um spoiler da morte e da vida ao mesmo tempo, Fellipe.

  4. Bruno
    15/09/2012

    Jean des Esseintes, um crítico francês que me fascina pela agudez do pensamento, escreveu, num livro chamado “L’ordre du désordre”, um ensaio, chamado “Mesure de la douleur”, muito interessante sobre a obra do Semanuang-Tonghlao, no qual ele trabalha com a possibilidade de haver uma ligação entre “A máquina…” e “O Polvo”, escrito por Khana Ratsadon durante a revolução de 32. Acho que vale a leitura desse texto para uma compreensão mais geral de “A máquina…”.

    • Bernardo
      15/09/2012

      Sem dúvida uma observação arguta, Bruno. Trata-se de um quebra-cabeça de grandiosa configuração.

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Publicado em 13/09/2012 por .
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