Livros que você precisa ler

Essa é minha música, esse é o teu corpo

Tumurqhulek Punsaljargal

Essa é minha música, esse é o teu corpo – 1992 – Ed. Martes.

Mongólia

(1950)

Uma das imagens mais fortes deste livro é a de um cavalo em um campo. O cavalo queima, se contorce em chamas. A imagem de um corpo em combustão volta outras vezes. Um sapo queimado vivo na infância do narrador, um cão labrador, um homem, um pai com o corpo em chamas. É um livro que arde. Por vezes descreve também o próprio enterro do narrador.  Mas não temos um único narrador. A técnica de Punsaljargal faz com que o texto salte para narradores diferentes como uma alma que procura um novo corpo. A história é difícil de divisar. Um homem e seu filho empreendem uma viagem totêmica. Parecem procurar abrigo, mas falam línguas diferentes. Não se entendem. É nessa viagem que veem diversas vezes o mesmo cavalo sendo queimado vivo. Talvez seja um livro sobre a falhança da paternidade. No fim do livro sobra apenas o crepitar das chamas: o murmúrio de um segredo antigo, muito antigo. A razão, como disse Ernesto Sábato, não serve para a existência. Nas poucas entrevistas disponíveis do escritor na internet ele parece falar com uma faca cravada no peito.

Trechos:

“Um cavalo queimando em uma estepe. Dá coices e pula enquanto sua pele se torna mais viscosa, mais brilhosa. Do seu olho surge um líquido obsceno, se derramando no silêncio. Não parece sentir dor. O que há é a eternidade.” (Pág. 28)

“A tua pele é um intricado sistema de afirmativas e negativas, frases escondidas entre pequenos pelos esparsos. Toda a tua vida parece estar tatuada, com tinta invisível, nesta pele mista. Uma infância de pele, uma adolescência de pele. Poderíamos usar esta tua pele como um casaco, não para os dias de frio, mas para os dias de calor, calor extremo.” (Pág. 97)

“Meu corpo parece coberto de chamas azuis quase invisíveis. Impossível tocá-las. Tomo um banho, como alguma coisa e arranco a calça pra tudo voltar a ser como antes. Demoro-me. Um longo movimento com o punhal invertido cravado no ventre.” (Pág. 122)

“O sonho era um cavalo. Um cavalo incendiado como uma vontade, um filho inventado, a folha de coral, inflamada a cabeça do cão, as estruturas infantis, a colheita das raízes, os sonâmbulos passos, o escuro que ruge, as palavras que rompem.” (Pág. 179)

Tradução: Antonio Marcos Pereira.

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3 comentários em “Essa é minha música, esse é o teu corpo

  1. Julyana
    17/09/2012

    Comprei esse pelo título (:

  2. htrpnts
    18/09/2012

    tudo que eu precisava ler agora.

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Publicado em 17/09/2012 por .
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