Livros que você precisa ler

Pastor-alemão tamanho médio

Mohammed Ibn Baruk

Pastor-alemão tamanho médio– 2012 – Dois Pontos Editora.

Sudão/França

“A brincadeira de se esconder. Um menino conta com os olhos voltados para o tronco de uma árvore enquanto se escondem, em ordem, seu cachorro, seu irmãozinho prematuro, sua mãe e logo depois seu pai e um punhado de amigos, além da primeira namorada. A bochecha já marcada pela textura do tronco um pouco espinhento. O menino conta sabendo que sua contagem não tem fim. Conta sabendo que as pessoas não vão parar de se esconder até que ele mesmo desapareça. O menino crescido acha que Deus criou o mundo pela metade. O menino crescido crê num Deus amputado. Um Deus que não pode criar nem a si mesmo. O mundo está amputado, para o menino crescido.” Pastor-alemão tamanho médio, o novo livro do sudanês radicado em Paris Mohammed Ibn Baruk começa assim. Quase 300 páginas depois chega ao fim com uma nova contagem: “10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1,618033989”. Uma frase enigmática que sugere a morte do menino crescido ou sua volta à natureza já que o número 1,618033989 é conhecido por número ou proporção áurea. A história do personagem e seu cachorro pastor-alemão que o ensinou a encarar a morte e que, em muitos trechos do livro, é relacionado a Jesus, cativa o leitor. Sempre em uma distante terceira pessoa, o que temos aqui é um livro narrado por Deus, segundo o crítico colombiano Julian Cardoni. “Mas um Deus que já não pode fazer nada, um Deus que já não se reconhece como tal e tenta imputar seus erros a outros”, complementa. Mais uma vez Mohammed Ibn Baruk, em pleno domínio da sua técnica, faz andar a sua máquina narrativa, um robô gigante, uma máquina maiúscula que se pretende gente.

Trechos:

“É bem sucedido como animal de pastoreio, esse pastor-alemão tamanho médio. Basta um grito de comando, um som de uma trombeta, um grito desesperado.” (Pág. 49)

“Um Deus amputado criou o mundo à sua imagem e semelhança.” (Pág. 98)

“Lambeu os pés do menino, lavando-os com sua saliva.” (Pág. 134)

“Apenas fechar os olhos novamente e começar a contagem. O menino crescido conta seus fios de cabelo, suas unhas, as minúsculas verrugas que lhe crescem nos pés.” (Pág. 162)

Tradução: Miguel Perdigueiro.

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Publicado em 27/11/2012 por .
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