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A chama é de natureza animal

A Chama

A chama é de natureza animal – 2006 – Ed. Maipú.

André Elias

Brasil/Canadá

(1977)

“Vim ao Canadá porque aqui me disseram que vivia meu pai, um tal de Marcos. Minha mãe que disse. Vim ao Canadá porque aqui me disseram que vivia um tal de Marcos, meu pai. O fantasma da minha mãe me disse. Vim ao Canadá porque aqui me disseram que vivia meu Marcos, um tal de pai. Minha fantasma me disse. Vim porque aqui me disseram que vivia um fantasma, um tal. Meu Canadá me disse.” O início de A chama é de natureza animal, título retirado de um poema de Novalis, é uma variação infinita do começo de Pedro Páramo, livro mítico do escritor mexicano Juan Rulfo. Trata-se uma obra sobre a obsessão e sobre uma familiaridade ausente. A questão da filiação extrapola o texto, que tenta ser uma mistura de elementos de Thomas Bernhard, Juan Rulfo, Raduan Nassar, Raimundo Carrero, entre outros. O texto parece buscar esses pais literários sem, no entanto, tocá-los, transformando-se, assim, numa paródia, em um filho negado, bastardo, possuído, tresmalhado. André Elias vê seu personagem como uma vítima dessa obsessão que paira sobre o texto sem ser mencionada. Entre os trechos mais marcantes da obra há o assassinato, em um templo Hare Krishna, de dezenas de pavões. A chama é de natureza animal é um romance inquietante que desafia o leitor a procurar seus pais. André Elias é um escritor amazonense nascido em Manacapuru radicado em Ottawa, Canadá. Não chegou a conhecer seus pais e hoje, 6 anos depois da publicação do seu primeiro e único romance, nega a sua autoria.

Trechos:

“Vim aqui porque lá me disseram que eu vivia, um. Meu pai não me disse.” (Pág. 46)

“Aqui em Ottawa relembro Manacapuru e o templo de Nova Vraja Dhama. Ouço uma voz de mulher atrás de mim. Me viro. Não encontro ninguém. Pensei que a voz pudesse ser da minha mãe, mas já não conheço minha mãe. Já não conheço minha cidade, meu país, meu território, sou um Franz Tunda. Ou melhor, ele é o meu pai.” (Pág. 79)

“Meus inimigos têm sido os pavões. As dezenas de pavões que têm me deixado louco aqui, meu pai me disse, no templo de Nova Vraja Dhama e, sentado aqui na escadaria do templo de Nova Vraja Dhama, resolvi matar todos aqueles pássaros que têm me deixado louco com sua cores, seus sons abjetos e suas dores. Totalmente nu e segurando a barra de ferro me dirigi aos pavões aqui em Nova Vraja Dhama.” (Pág. 112)

“No entanto não escreverei mais este livro. Um pastiche entre os pastiches. Um erro entre os erros. uma dor entre as dores. Um pavão já morto ao nascer.” (Pág 125)

“Custa-me muito imaginar meu pai vivo. Talvez meu pai nunca tenha existido. Talvez seja um daqueles pavões que, ainda no Brasil, esfolei com a barra de ferro.” (Pág. 178)

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4 comentários em “A chama é de natureza animal

  1. IlkaPorto
    02/04/2013

    Bem legal. Fiquei curiosa depois dos trechos que vc postou.

  2. Rui Werneck de Capistrano
    25/02/2015

    Uma pergunta: você leu todos esses livros? Todos?

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Publicado em 02/12/2012 por .
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