Livros que você precisa ler

Sarsalão, Deus ama?

Sarsalão Deus Ama Capa

Sarsalão, Deus ama? – 2012 – Ed. Limite.

Ida Bahr

Áustria

(1947)

Sarsalão, Deus ama?, que teve como primeiro título Vim ao mundo com uma bela ferida, é um livro sobre a negação do ato de criar. A imagem de uma orca brincando com o corpo de um leão-marinho abre o primeiro capítulo e fecha o último. Uma imagem que pode ser lida como uma metáfora do escritor brincando com palavras mortas ou de Deus brincando com uma humanidade também já morta. A imagem da orca foi captada por Daniel, um homem que faz documentários para a TV alemã. No fiapo de enredo temos um grupo, provavelmente a família de Daniel, que espera o fim do mundo num abrigo antinuclear enquanto briga e lembra fatos desagradáveis do passado. O crítico Julian Cardoni ressalta a ironia de Ida Bahr ao escolher justamente um abrigo antinuclear para uma família que se desintegra por si só. O sentimento de falhança permeia todo o livro. Entre as lembranças da família acompanhamos a história de um casal que não pode ter filhos (possivelmente os pais adotivos de Daniel) e que compra cãezinhos pretos para depois espancá-los, além da história mítica de Sarsalão, um guerreiro que põe abaixo as muralhas de uma cidade comandada por poetas. O texto desliza para a frente e para trás criando faíscas em pouca quantidade para iluminar um futuro tão sombrio. Bahr parece querer nos mostrar a derrota da criação cósmica. Como observou Canneti, citado pelo crítico italiano Roberto Calsasso: “A harmonia pitagórica das esferas tornou-se a violência das esferas.” Calasso observa ainda que a família de Daniel pertence à multidão dos que esperam e que se apinham numa “massa sem fim, que se perde na escuridão.” Muitas vezes a autora recorreu à segunda pessoa do plural para tentar se distanciar da humanidade.

Trechos:

“E, abrindo a sua boca, os ensinava, como que dizendo: Orcinus, o reino da morte.” (Pág. 16)

“O hino da paciência. O uniforme militar da paciência. O brado de guerra da paciência. A medalha maldita da paciência.” (Pág. 29)

“Ouvistes o que foi dito aos antigos: essa cidade é uma ferida.” (Pág. 45)

“Vós não acendeis a candeia porque a luz não se dá a quem é de casa.” (Pág. 90)

“Pula e vai, de palavra, solta no ar, já morta, caindo e voltando a subir. E abrindo a sua boca, os ensinava.” (Pág. 125)

“O poeta tem a palavra como seu Deus e está perdido porque a sua palavra não é Deus. O poeta é contra Deus. O poeta é o anticristo da linguagem.” (Pág. 136)

Tradução: Nilton Resende.

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Publicado em 16/12/2012 por .
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