Livros que você precisa ler

Deus furou a minha boca

Deus Furou

Ida Bahr

Deus furou a minha boca – 2013 – Ed. Limite.

Áustria

(1947)

A autora dos já consagrados Por um Caravaggio (1994) e A arrogância do Dr. Jörn (1998) surpreendeu o mercado editorial da terra de Thomas Bernhard e Elfriede Jelinek com esse Deus furou a minha boca. Maior surpresa foi a iniciativa da Editora Limite em publicá-lo já agora no começo de 2013 no Brasil. A novela é uma espécie de continuação do seu romance de 2012, chamado Sarsalão, Deus ama? Esse novo livro começa com um sonho. Uma mulher sonha com a mãe já morta tocando um instrumento musical desconhecido e pedindo que a filha leia um livro. O livro muda de idioma enquanto a filha lê, do espanhol ao mandarim. Ao acordar, a mulher, a filha, a narradora, Maya Veerpalu, recobra-se de um trauma de infância e volta a falar. O dom da fala passa a ser algo estranho para Maya. A novela de Ida Bahr não busca explicar o mundo. Nem ao menos organizá-lo. Aqui, o importante é a imagem do dedo de Deus revirando tudo. Alguns leitores vão achar pesadas as digressões da narradora, contudo o sentimento de elevação e queda do relato de Bahr é celebrado pelo crítico Julian Cardoni como “uma brilhante dissecação da humanidade numa época atroz”.

Trechos:

“O nome é um engano. Pois o nome não é uma representação, é uma coisa em si.” (Pág. 12)

“Ele virado, todo, virado, virado em um saco de pantera.” (Pág. 19)

“Deus furou a minha boca. A minha boca agora furada emite sons, que formam palavras, que formam coisas, que forma uma vida, que, com outras vidas, formam Deus, que volta a furar a minha boca.” (Pág. 32)

“Quando cheguei para trabalhar havia um rato morto e sem pelos na frente da porta. Um feto encolhido, o meu rato. Olhei de novo e o rato já não tinha focinho. Mais um pouco e não existiam mais suas orelhas. Com um pouco de esforço já não se podia ver suas patas e sua cauda. O rato não estava mais lá. Mas o seu sorriso continuava. O meu rato era o gato de Alice.” (Pág. 41)

“Teria que desenterrar o pai pela terceira vez. Era muito importante que tivesse sido enterrado de meias, disse o coveiro. Só agora ele sabia. Sim, estava de meias. ” (Pág. 49)

“-Parem de falar, parem de falar, sempre pode ter alguém a escutar!” (Pág. 69)

“Deus furou a minha boca com o seu dedo melado e acusador. Deus enfiou bem forte e fundo o seu dedo melado e acusador e puxou a minha língua pegajosa. O dedo melado e acusador de Deus e minha língua pegajosa faziam uma coisa estranha na minha boca. Duas lesminhas frias copulando palavras infinitas, larvinhas prontas para ganhar o mundo.”

“Como era diferente aquele tempo em que Deus ainda não havia furado minha boca. As coisas eram só uma coisa e não duas coisas.” (Pág. 95)

“A minha alma tem um ponto cego.” (Pág. 103)

Tradução: Hans Peter Silva.

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Publicado em 11/03/2013 por .
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