Livros que você precisa ler

Catilinária

Catilinária capa

Karis Berzinsk

Catilinária – 2014 – Ed. Mata-borrão.

Letônia.

(1967)

“Tenho uma mancha escura no rosto. Sou uma daquelas estátuas que, de tão tocadas por turistas em busca de boa sorte, apresentam desgastes na cor em uma determinada parte do corpo. Meu rosto é minha corcova. Minha cara é uma mancha desgastada pela mão invisível do tempo, que é só um outro nome para Deus”. Assim começa o primeiro romance do letão Karis Berzinsk. O narrador, chamado Sirak, é um suicida que nunca se suicida por achar que o seu suicídio deve ser uma obra de arte, a máxima obra de arte. Enquanto trama seu próprio fim, Sirak escreve a obra maior do seu tempo, um romance de quatro mil páginas dividido em seis volumes que é, também, um estudo sobre o rosto humano, sobretudo sobre o olho humano. Um estudo que desfaz tudo o que entendemos sobre o olho humano. Um estudo que pairará sobre todos os estudos. O fiapo de enredo se enrola como um novelo gigantesco que parece querer conter o mundo em muito pouco. Segundo o crítico colombiano Julian Cardoni, “um livro para ser deixado em uma ilha deserta quando conseguirmos fugir de lá”. A prosa de Karis Berzinsk é encantatória, com repetição de palavras, das mesmas palavras, de tempos em tempos, como se em um efeito mesmerizante. Cardoni aponta ainda para o discuros dentro do discurso, dentro do discurso, uma das obsessões do letão e para o discurso que se aproxima do famoso trecho de Kafka: “Livros que nos fazem felizes poderíamos escrever nós mesmos num piscar de olhos. Precisamos de livros que nos atinjam como a mais dolorosa desventura, que nos assolem profundamente – como a morte de alguém que amávamos mais do que a nós mesmos –, que nos façam sentir que fomos banidos para o ermo, para longe de qualquer presença humana – como um suicídio”.

Trechos:

“Preguei os olhos, assim, Unter, assim Sirak, assim Minha Morte. A Catilinária, só essa palavra poderia descrever a minha irmã, a Catilinária enorme, a Catilinária sem jeito, a Catilinária com dois peitos enormes e uma ignorância viscosa, a Catilinária, assim Unter, assim Sirak, assim Minha Morte. ” (Pág.58)

“Tal representação é chamada olho reduzido, e traz a representação das distâncias entre a córnea e a lente, entre eu e você, a indesejada, assim Unter, assim Sirak, assim Minha Morte. A pupila ecoa todas as imagens que abomino. A imagem que abomino dentro da imagem que abomino, formando uma nova imagem que abomino dentro da minha cabeça.” (Pág. 78)

“Unter é o eu de baixo, ele tem o olho mais apurado. Sirak é o eu de cima, seu olho é embaçado. Talvez por causa dessa mancha no rosto porque sou uma daquelas estátuas que, de tão tocadas por turistas em busca de boa sorte, apresentam desgastes na cor em uma determinada parte do corpo.Turistas desgastam meu rosto. Meu rosto é um turista. Meu olho é um turista olhando abobado para dentro. Meu olho é uma estátua sem cor. Meu rosto corpo é desgastado em determinadas partes.” (Pág. 88)

“Na floresta de Untersee acolhi a mim no meu cristalino. Minhas ideias em metástase. Pensei que a inteligência do olho, melhor dizendo, a Vontade do Olho, é perfeita para lidar com as pessoas a nossa volta que desprezamos. Mas se não tivéssemos A Vontade do Olho, estaríamos terrivelmente perdidos, afinal, A Vontade do Olho não é outra coisa senão uma arma contra um mundo contrário. Um mundo que se forma mesmo ao contrário e o olho tudo modifica, tudo põe de ponta-cabeça, a Vontade do Olho.” (Pág. 117).

“O centro avança até a borda do olho, o olho é pura linguagem, um caracol, um processo, um virtuosismo, pura língua, puro idioma. Assim a Catilinária, assim Eu, assim Unter, assim Sirak, assim minha mancha desgastada no rosto, assim Minha Morte, que abarca tudo.” (Pág. 173)

“O meu olho avança até o centro do meu corpo. Meu olho é pura língua. Meu olho se desgasta com os turistas de determinadas partes. Meu olho está de ponta-cabeça, disse à Catilinária, assim Unter, assim Sirak, assim meu olho olhando abobalhado para dentro.” (Pág. 210)

Tradução: Gabriela Ventura Fet.

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Publicado em 24/01/2014 por .
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