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O cocheiro

O Cocheiro Capa

O cocheiro– 1998 – Dois Pontos Editora.

Konstantin Pavluchenko

Rússia

(1947-2009)

Nas ruas de São Petersburgo um cocheiro conduz sua carruagem puxada por um bezerro, um porco, um cachorro e um homem nu. A cada parada ele conversa com estranhos, insulta transeuntes, cospe em senhoras empertigadas e, principalmente, explana sobre a doutrina da alma e seus avatares. Para o estranho cocheiro, a alma é um avatar do tempo, é o tempo personificado no indivíduo, e a palavra é a última partícula da alma, como o átomo é (ou era) a última partícula do mundo material. Ainda segundo o cocheiro alma e ódio  são sinônimos. Mas é seu sinônimo apenas quando o homem nu puxa a carruagam com mais força. Quando é o bezerro quem o faz, isso é o amor. O estranho romance (na verdade um grande conto) de Pavluchenko se detém sobre esta estranha figura que  se banha no rio Nievá em pleno inverno enquanto pequenos demônios de barrigas azuladas pendem das suas narinas. Muitos críticos já identificaram o personagem como Deus, o Diabo, ou o Destino, ou a Vontade de Poder (Der Wille zur Macht). Para o crítico literário colombiano Julian Cardoni, isso pouco importa desde que o cocheiro seja o leitor. Cardoni aponta ainda influência de Duns Escoto (o Doutor Sutil) na obra e no pensamento de Pavluchenko. Outros  personagens secundários como o médico, o escritor, o ex-combatente da Guerra da Crimeia, o silêncio e o homem-com-cabeça-de-cavalo gravitam em torno do cocheiro. O doutorando em literatura russa Osmar Figueiredo escreveu uma interessante tese relacionando O cocheiro de Pavluchenko à formação das pátrias. O importante aqui é que, como um clássico, o livro é prenhe de interpretações. É um romance intransigente na sua vontade de contar somente a verdade. E em qualquer plano que ela esteja.

Trechos:

“Demoniozinhos azuis como veias pendurados em suas narinas combinavam uma mímica bizarra acendendo-lhe um charuto ou beijando-lhe a boca. Ele os chamava de “pensados”.” (Pág. 34)

“Ah, madame, nessa cidade de P., minha madame, se o porco puxa a carruagem com mais força é alegria que vamos ter. Não sabemos se sua ou minha. Mas, ah, sim, alegria.” Disse o cocheiro enquanto estalava o chicote nas costas em sarça do homem nu.” (Pág. 85)

“Borbulhando sob uma fachada da margem esquerda da Avenida Niévski achamos o homem-com-cabeça-de-cavalo. Ele pensa certamente em algo ligado à morte.” (Pág. 125)

“O silêncio é a soma de todas as possibilidades.” (Pág. 186)

“E ele dizia que não. Às cabeçadas.” (Pág.199)

“Agora era uma tróica. O homem nu ia no meio, como que carregando a sua cruz.” (Pág. 216)

“Há um momento em que a tróica cruza o monumento a Pedro, o Grande, um ponto em que o tempo se comprime e todas as lembranças se fundem em uma só, consumindo todas as outras.” (Pág. 255)

Tradução: Rafael Pashtukhiev

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Um comentário em “O cocheiro

  1. Joclécio Saraiva
    19/02/2013

    Bernardo, aqui é Joclécio, da Dois Pontos. Não consigo entrar em contato com você. Aguardo retorno. Abraço.

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Publicado em 11/02/2013 por .
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